sexta-feira, 23 de março de 2018

Obediente até a morte - Artigo

Dom Pedro Conti, Bispo de Macapá 
A Semana Santa, que iniciamos com o Domingo de Ramos, é uma grande convocação para os cristãos católicos. Não é uma comemoração de algo do passado e nem uma encenação mais ou menos folclórica. O que está em jogo é a nossa própria fé. A liturgia deste domingo nos faz lembrar dois acontecimentos: a entrada de Jesus em Jerusalém, aclamado como o “bendito que vem em nome do Senhor”, e a morte dele na cruz, alguns dias depois, desfecho de terríveis sofrimentos. Nos dias seguintes, ao longo da semana, continuaremos a reviver aqueles momentos decisivos da vida de Jesus até o Domingo da Ressurreição.
Somos convocados como cristãos a acreditar no sentido e no valor único e irrepetível da paixão e morte de Jesus. Antes de ser reconhecido e acreditado como “Senhor”, após a sua ressurreição, Jesus passou pela vergonha, humilhação e obediência da cruz. A quem ele obedeceu? A Deus Pai. Mas porque isto é tão importante ao ponto de marcar para sempre a história da humanidade? Talvez para alguns bilhões de seres humanos tudo isso seja insignificante ou até blasfemo, conforme as suas convicções religiosas, filosóficas ou simplesmente existenciais. Não pode sê-lo, porém, para os que se declaram cristão s. A motivação é a mesma da nossa fé. Nós não acreditamos num “deus” sem rosto e sem nome, ou resultado das nossas especulações racionais. Nós acreditamos naquele Deus que Jesus veio nos fazer conhecer, através da história do povo de Israel, preparada por séculos, e, enfim, concluída na pessoa dele, no jeito dele “contar”, com a sua vida, o amor do Pai.
A experiência de cada ser humano pode-se resumir entre o medo da morte e a disputa para a própria afirmação. Esta é a tentação e a decisão de sempre e de todos: achar, ou não, que nós somos os “deuses” deste mundo e, por isso, excluir da nossa vida qualquer “deus” que não colabore com os nossos projetos de sobrevivência. Por terem o mesmo objetivo, esses “planos” humanos acabam sendo de poder, de superioridade de uns sobre outros, de bem-estar particular, somente para alguns poucos privilegiados. Nesses projetos, apesar das palavras bonitas, cabem bem poucas ações concretas de partilha, solidariedade e fraternidade. A grande, grande mesmo, maioria da humanidade fica de fora, sempre sonhando entrar para fazer parte, um dia, de algum clube de eleitos. Quando a pessoa obedece aos seus desejos de poder e superioridade, coloca a sua inteligência e os seus sentimentos a serviço da ganância e, infelizmente, também da violência. O que vale é a força das armas, do dinheiro, da tecnologia.
Para quem se declara cristão e conhece um pouco da boa notícia de Jesus, é fácil perceber que o “projeto” dele, que chamou de “Reino de Deus” era, e ainda é, o contrário de tudo aquilo que acabei de descrever. Não podia ter sucesso, era ousado demais. Os que condenaram Jesus pensaram ter matado a sua proposta junto com ele na cruz.  No entanto os seus discípulos não desistiram, decidiram, com a ajuda do Espírito Santo, “obedecer”, como o próprio Jesus, ao projeto de Deus Pai e “desobedecer” a qualquer outro plano simplesmente humano de autoafirmação individual ou de grupo. Nós, os cristãos de hoje, so mos chamados a sermos os continuadores do projeto do Reino. Jesus ensinou a buscá-lo antes de tudo. O resto, incluindo a paz mundial e uma vida digna para todos os seres vivos nos será dado por acréscimo.
Ouso chamar isso de “convocação”, porque precisamos unir mais as forças da boa vontade, da honestidade e da generosidade. A comunidade dos seguidores de Jesus, a Igreja, não coincide com o Reino de Deus, ele é maior, mas dele deve ser “o germe e o início”. Somente quando alguém “obedece” de novo, o Reino continua acontecendo e crescendo. Agora, é a nossa vez de sermos “obedientes” ao projeto de Deus Pai. “Até a morte” significa com toda e por toda a nossa vida, dia após dia, na paciência, no serviço, no amor. Esta é a Vida Nova, a Vida Plena de Deus vivo e verdadeiro.   

Nenhum comentário:

Wagner Gomes questiona pesquisa CTB

"A pesquisa feita pela Mentor, a mando da CTB, me pareceu bastante estranha e contemporânea", me disse o advogado Wagner Gomes, ...