segunda-feira, 5 de junho de 2017

Ajoelhou tem que rezar

Olimpio Guarany

O desastre aconteceu no Amapá, mas o processo corre na justiça do Rio de Janeiro.
Era 28 de março de 2013 quando se ouviu um estrondo, um caminhão guindaste sendo engolido pelo rio Amazonas e em seguida uma grande faixa do barranco deslizou rio abaixo, barcos afundaram e seis pessoas desapareceram. Teria sido um acidente natural? Foi imperícia? Imprudência? Excesso de peso em cima de uma estrutura de solo frágil?
No primeiro momento representantes da Anglo Ferrous afirmaram ao G1 que "a causa foi uma onda gigante que se formou no Rio Amazonas. A força da água teria destruído tudo”. No mesmo dia já havia controvérsia. O meteorologista Jefferson Vilhena disse que "a causa poderia ser outra, um deslocamento de terra provocado pelo excesso de peso”
Parece uma brincadeira de bandeirinha na escola, mas não é. Há um embate em que de um lado a defesa da Anglo Ferrous tenta provar que a empresa não teve culpa e de outro a acusação afirma que sim, ela é responsável. Nesse puxa-encole já se vão quase quatro anos e não se chegou a uma conclusão. O que não dá para aceitar é mais um lance de espoliação do Amapá.
Imagine quanto vale um porto com saída para navegação de longo curso, interligando uma bacia de mais de 19 mil quilômetros rios navegáveis para transporte de carga? Eu diria inestimável. Considere ainda que este porto está ligado a uma ferrovia que pode ser multifuncional. Tanto serve para transportar minério por 200 km, madeira por 150 km , soja por 100 km, pessoas e outros produtos de diversas localidades. Uma ferrovia estimada em R$ 220 milhões. Considere que, na região, existe uma estimativa de 180 milhões de toneladas de minério de ferro e outros passíveis de exploração. Agora pense no pior: tudo isso está resumido num imbróglio, onde seis vidas foram ceifadas, trabalhadores ficaram sem receber, fornecedores falidos e a Anglo Ferrous querendo posar de inocente?
Não pretendo enfiar a faca no pescoço da Anglo e condena-la de bate pronto, afinal este assunto é para a justiça decidir, mas como jornalista preciso tirar a pulga que está atrás da minha orelha. Andei colhendo informações seguras e constatei que a ICOMI- construtora do porto - levou 43 anos embarcando cerca de 35 milhões de toneladas de manganês, retiradas do subsolo amapaense. Apurei que, em apenas 4 anos e meio, a Anglo exportou 18 milhões de toneladas de minério. Só em 2012 exportou 5,9 milhões de toneladas, isso quer dizer que, caso continuasse as atividades, em 8 anos a Anglo retiraria o que a Icomi levou quase meio século para fazê-lo. Ainda teriam estocados no porto de Santana minérios no valor de US$ 110 milhões. Tomando isso como base, dá para admitir que a pressão sobre o porto foi muito forte, no período em que Anglo o explorava. Esse é outro assunto para especialista em perícia, todavia precisamos encontrar o “X” da questão. Vamos lá. A Anglo quer receber o resseguro de R$ 560 milhões, se considerada inocente, entretanto se for constatado que ocorreu imperícia, ou seja, houve excesso de peso sobre o solo do porto com estocagem de minério, por exemplo, aí a Anglo poderá arcar com os prejuízos.
Huuum, então é por isso que Anglo mobilizou “engenheiros especialistas”, os mesmos que fizeram o laudo pericial, para debater assunto em evento justamente no Dia do Meio Ambiente, para tentar provar que não tiveram culpa? Os ingleses nunca meteram prego sem estopa, vide a histórica exploração de terras além mar, colonizadas por eles, em séculos passados.
Uma coisa é certa: esse episódio, além do sinistro com 6 pessoas, causou danos econômicos irreparáveis ao estado; muitos desempregos gerados e a ferrovia, um patrimônio público, saqueada.
Do meu ponto de vista a empresa quer se eximir da responsabilidade que a justiça pode lhe impor por não fazer o indispensável monitoramento do porto. Se  a Anglo tivesse feito o dever de casa, certamente não estaríamos lamentando tal fato.
O Amapá não suporta mais ser dilapidado ou, numa linguagem caseira,  "não pode ser passado para trás,” enquanto inescrupulosos levam as riquezas, os bônus e o povo a pobreza e o ônus.
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Olimpio Guarany é jornalista, economista e professor universitário

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