sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Kaiowá Guarani – a silenciosa guerra colonial

Egon Heck, do Conselho Indigenista Missionário do Mato Grosso do Sul, escreve, desde Dourados, sobre o drama dos Kaiowá Guarani, recordando, no Dia Farroupilha, a saga de Sepé Tiaraju.
Eis o artigo.
 “Queremos declarar que estamos muito perplexos e tristes por ser expulso da nossa terra. Aqui na margem da estrada corremos risco de vida devido a alta velocidade de veículos” (Carta da comunidade Laranjeira Nhanderu – 11 de setembro 2009).
A noite envolvia  os barracos no km 308 da BR 163, próximo à cidade de Rio Brilhante. As faixas identificavam os ocupantes.  Não tardou e uma potente camionete passasse lentamente próximo ao nosso carro para identificar a placa.  Porém o sistema de segurança da comunidade foi mais rápido, deslocando-se para o local e evitando qualquer dano ou identificação. Com arcos e flechas, estavam coordenados pelo nhanderu Olimpio. Logo surgiu um carro dos jagunços jogando os holofotes sobre os barracos e o grupo reunido em frente à porteira.
A comunidade denunciou as permanentes ações intimidatórias dos fazendeiros e de sua milícia armada. Contaram fatos recentes em que esse seguranças,  fortemente armados, impediram os índios de pegar lenha para cozinhar seus alimentos, perto da ponte do rio Brilhante.
Já nos distantes pampas e Brasil afora a tradição e orgulho gaúcho, que é bom que se diga, nasceu do genocídio de um povo indígena, os charrua. Recontando essa história mal conhecida, escreve Selvino Heck: “A história agora (re)contada faz um desnudamento: o gaúcho surgiu de muito sangue e discriminação. Um povo foi praticamente dizimado. Mas como os humilhados e ofendidos da história sempre resistem, os charrua usaram os meandros da história para permanecerem vivos. Misturaram-se, viraram mestiços, e suas virtudes de povo de heroísmo e valentia de alguma forma aí estão, vivos, ressuscitados no gaúcho. Importa, neste momento histórico, reconhecer a origem e humildemente pedir perdão. Que não se repita na história o genocídio de um povo livre. Que os milhões de índios e negros escravos assassinados neste país gritem mais alto por dignidade, por direitos, por justiça.”(Selvino Heck, setembro 2009).
Neste mesmo Rio Grande, em regiões limítrofes, viveram e foram sacrificados milhares de Guarani, juntamente comSepé Tiaraju.  Hoje o Rio Grande poderia ser eminentemente CharruaGuaraniKaingang e de outros povos sacrificados no altar do projeto colonizador.
Avanço do projeto  colonizador
“Os guarani-kaiowá foram os povos indígenas mais prejudicados, dada a rapidez e truculência com que suas terras foram tomadas. Sua resistência é comovente, mas sua luta não pode ser considerada um problema só deles. É nossa. Os direitos dos indígenas são também nossos direitos. Assim como o que acontece com eles nos atinge, nos degrada, denuncia a fragilidade de nossos planos de sermos uma potência mundial...Não há mais espaço para que povos tradicionais sejam tratados com um olhar arrogante de colonizador, que decide por eles o que deve ou não ser feito em relação a seus interesses e costumes. Não é mais possível tolerar que sua cultura milenar e seus direitos civis e humanos sejam espezinhados pela ganância, em nome de argumentos que não resistem a uma análise bem informada e honesta.”(Senadora Marina  Silva – 17-09-09).
Quando o presidente Getulio Vargas, um dos expansionista gaucho-brasileiro, resolver gauchar essas bandas que foram Paraguai, tinha uma empreitada prévia, que era de desguaranizar a região. Ou seja, os Kaiowá Guarani teriam que deixar de teimar existindo como tal e ocupando essas terras. O sul do então Mato Grosso teria que ser “colonizado”. E assim foi feito. Surgiu a colônia de Dourados, a Vila Vargas, as colônias. E o projeto colonizador continua, com a negação da terra aos índios Guarani e Terena, com a concentração cada vez maior da terra nas mãos de uns poucos donos das agroindústrias, do agronegócio e, ultimamente, nas mãos dos grandes grupos multinacionais. Cadê os ruralistas nacionalistas para gritar contra essa internacionalização do Mato Grosso do Sul? Os índios, como sempre o foram no imaginário e na prática do colonizador, continuam sendo  a ameaça e o obstáculo.
Egon Heck

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