terça-feira, 24 de setembro de 2013

Soja no Amapá, conflito à vista


Olimpio Guarany

Considerada por alguns como uma “praga” para a Amazônia, não será por falta de apoio da Embrapa que a soja vai deixar de entrar no Amapá. Na semana passada a instituição trouxe o “melhorista” e pesquisador Sebastião Pedro da Silva Neto, coordenador do programa de melhoramento de soja da Embrapa Cerrados, de Planaltina-DF, uma das referências em melhoramento genético de soja no Brasil para dar, digamos, uma aula aos pioneiros da cultura da soja no Amapá. Outro especialista em transferência de tecnologia, Gustavo Castro, destacou o entusiasmo de alguns produtores que para cá vieram trazendo a experiência de terem explorado o Centro-Oeste brasileiro ressaltando a extrema capacidade de produtividade de nossas terras. Com tanto entusiasmo, nas primeiras experiências em uma área de 10 mil hectares, chegou-se a dizer que em áreas já estabilizadas a produtividade  ultrapassa as 60 sacas, em média, com picos de até 75 sacas de soja por hectare, ou 4.500 kg/ha, muito superior a média nacional. 
Confesso que fiquei assustado com essas informações. Minha preocupação é de que isso se propague Brasil a dentro e comece a atrair sojeiros inescrupulosos apenas interessados nos lucros, e nem ai para os impactos que podem causar.
O perigo é que a “propaganda” pode atrair os capitalistas do setor que, movidos pela ganância, passem a comprar as terras, a baixo custo, ainda disponiveis por aqui, desalojando nosso caboclo que, fatalmente, será “mandado” para as cidades, fadado a sofrer na marginalidade por falta de qualificação; sem perspectivas de ascensão social.
Antes de propagar a idéia de que as terras do Amapá são férteis, com grande capacidade de produtividade, seria importante mostrar que mais de 52% do nosso território são áreas protegidas; uma boa parte está nas mãos de empresários que exploram atividades diversas e outra sob dominio do Estado.
O poder público e a sociedade devem ficar atentos para que os “sojeiros” não desembarquem por aqui com seus caminhões, tratores, silos, máquinas e dinheiro em caixa para explorar uma atividade que não gera emprego em massa e causa grandes impactos sociais e ambientais inimagináveis.
Seria bom que eles se informassem de que aqui não há grandes extensões de terras, o suficiente para a exploração da agricultura de exportação, caracteristica principal da soja, sobe pena de, com o peso do dinheiro, eles entrarem em áreas protegidas, florestas ou  indigenas, para criarem um problema que não temos hoje por aqui: o conflito agrário, mais comumente chamado de guerra do campo.
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Olimpio Guarany é jornalista, economista, publicitário e professor universitário

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